7. ARTES E ESPETCULOS 23.7.13

1. LIVROS  O DESPERTAR DO CARIOCA
2. CINEMA  SOBRE A LUTA COM MONSTROS
3. CINEMA  PR-HISTRIA DA ADOLESCNCIA
4. MSICA  NO COMPASSO DO ROCK
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  AO DEUS-DAR

1. LIVROS  O DESPERTAR DO CARIOCA
Um livro recupera o trabalho esquecido do austraco Kurt Klagsbrunn, que, nos anos 40, retratou um Rio de Janeiro que comeava a descobrir sua ginga. 
MRIO MENDES 

Nova viso": foi assim que o artista hngaro Moholy-Nagy se referiu  fotografia ao organizar o primeiro currculo para a disciplina na Bauhaus, a clebre escola alem de arte e design que alimentou a esttica europeia de vanguarda entre 1919 e 1933. Essa proposta de uma maneira diferente de ver e registrar a realidade  somando aguda capacidade de observao a aparato mecnico  influenciou fortemente a criao das primeiras revistas com reportagens fotogrficas na Alemanha, formato que se revelaria altamente popular tambm na Inglaterra e nos Estados Unidos a partir dos anos 30. O austraco Kurt Klagsbrunn (1918-2005) fez parte da primeira gerao a consumir tais publicaes. Familiarizou-se com a fotografia no s como prtica domstica  capturando instantneos da convivncia familiar e entre amigos , mas tambm como veculo de informao. Nascido em Viena, filho de um prspero qumico, Klagsbrunn pretendia ser mdico. Dois acontecimentos modificaram para sempre seus planos: a anexao da ustria pela Alemanha nazista e a compra de uma cmera fotogrfica. O primeiro provocou a sada de sua famlia, de origem judaica, do pas: o segundo determinou sua trajetria profissional e a maneira como ele iria se relacionar com uma nova ptria e um outro povo  o Brasil e, sobretudo, os cariocas.  justamente um Rio de Janeiro ingnuo, espontneo e luminoso, comeando a despertar para sua vocao de viver  beira-mar de um modo muito particular e irresistvel, que est nas pginas de Refgio do Olhar  A Fotografia de Kurt Klagsbrunn no Brasil dos Anos 40, de Marcia Mello e Maurcio Lissovsky (Casa da Palavra; 288 pginas: 90 reais), que chega s livrarias no prximo ms. 
     Ao desembarcar no Rio, em 1939, Klagsbrunn anotou com entusiasmo em seu dirio: "Primeiro banho de mar". A frase poderia muito bem servir de epgrafe para o trabalho que ele realizou a partir de ento. No s a Praia Vermelha  local desse encontro decisivo com o habitat do carioca  seria uma de suas locaes favoritas: o clima de ensolarada descontrao est presente na maior parte das imagens. "Trata-se de uma celebrao da vida e da descoberta de um novo mundo", resume a galerista e curadora Marcia Mello, coautora do livro. Segundo ela, foi necessrio um ano para selecionar as cerca de 270 imagens dentro de um imenso arquivo que vai da dcada de 40  de 80. Alm da exuberante e alegre crnica social que foi seu tema mais recorrente (englobando trabalhos para publicidade e revistas como Fon-Fon, Sombra e as americanas Time e Life), o livro traz as colaboraes de Klagsbrunn para a Ao Social Arquidiocesana, entidade para a qual registrou a vida nas comunidades carentes do Rio, e para a Unio Nacional dos Estudantes, na qual militou contra o fascismo. 
     O olhar estrangeiro de Klagsbrunn foi um de seus maiores trunfos profissionais. Enquanto as revistas nacionais queriam seu olho clnico para registrar os modismos da turma jovem nas areias de Copacabana ou a moda desfilada pela elite nas tardes elegantes do Jockey Club, as publicaes estrangeiras pediam as vistas panormicas e os ngulos mais lisonjeiros com que ele retratava a cidade e seus habitantes. Klagsbrunn tambm circulava pela vida noturna, das festas da alta sociedade s gafieiras da Lapa, e pelo meio artstico: retratou um sem-nmero de celebridades, como os atores Bibi Ferreira e Grande Otelo, o arquiteto Oscar Niemeyer e o cineasta americano Orson Welles, que veio ao pas rodar um filme que nunca ningum viu. 
     Os que conheceram Klagsbrunn nesse perodo falam de um homem tmido, sempre vestido com sobriedade: no dispensava o palet e detestava tanto o ventilador quanto o ar-condicionado. Tambm nunca se separava da valise de couro em que guardava seu equipamento. Com seu jeitinho retrado, conseguia a simpatia imediata de seus modelos, qualidade indispensvel para o cronista de costumes. E adorava fotografar seus pares: em seu acervo, h vrios retratos de colegas em ao. Klagsbrunn no se restringiu ao Rio. Graas  colaborao com revistas estrangeiras, foi fotografar ndios no Xingu, romeiros em Minas Gerais, jangadeiros e Mestre Vitalino no Nordeste, gr-finos e operrios em So Paulo. Em nenhum de seus flagrantes dos rinces ou dos contrastes sociais, porm, transparecem a crtica ressentida ou o sensacionalismo fcil to comuns nesse tipo de registro fotogrfico.  como se a joie de vivre carioca tivesse passado a acompanh-lo permanentemente. 
     Como o arquivo de Klagsbrunn  imenso e praticamente indito para as novas geraes, os autores j preparam um novo volume, desta vez dedicado aos anos 50, dcada em que ele viajou pela Amrica Latina e retornou pela primeira vez  Europa desde que seu exlio se iniciara. " curioso ver seu olhar de viajante sobre outros povos depois de ter passado pela experincia com a vida e a cultura brasileiras", diz Marcia Mello. Alm do alemo natal, Klagsbrunn era fluente em ingls e portugus. Mas, quando empunhava a cmera, falava todas as lnguas.

DOCE BALANO
Em imagem de 1947, o padro ondulado da calada de Copacabana na objetiva do fotgrafo que sabia explorar todos os ngulos da orla, sempre adornados por uma bela mulher. No autorretrato de 1948, ele posa em sua locao favorita na cidade, a Praia Vermelha, onde, em 1939, ao chegaro Brasil, experimentou a sensao do primeiro banho de mar.

JUVENTUDE DOURADA
Rapazes exibem a boa forma em Copacabana em 1946 e garotas vestem a moda do momento para velejar pela Baia de Guanabara, em 1945: olho clnico para os novos hbitos.

O AMBIENTE EXIGE RESPEITO
Era o aviso na entrada e o comportamento a ser seguido nas gafieiras, como esta, em foto de 1947. Klagsbrunn cobria tanto as festas da alta sociedade como a boemia da Lapa: uma cidade ingnua e espontnea.

EQUILBRIO ESTTICO 
Menino engraxate em ao no ento nascente Leblon, em registro de 1945. A composio austera, limpa e de grande eficcia no deixa escapar detalhes como a graxa acondicionada na garrafa de refrigerante e o alinhamento dos outros apetrechos: influncia do design grfico da Bauhaus.

CARTAO-POSTAL 
A imagem do Po de Acar na entrada da Baa de Guanabara era usada na publicidade da companhia martima Hamburg Sd, a mesma que trouxe a famlia judia Klagsbrunn para o Brasil em 1939, em fuga do nazismo: motivo recorrente no trabalho do fotgrafo para as revistas estrangeiras.

FOOTING NA CINELNDIA 
O espao no centro do Rio de Janeiro, criado nos anos 30 para ser a Times Square tropical, abrigava os maiores e melhores cinemas da cidade. Aqui fotografada em 1946, a Cinelndia era ainda o agitado ponto de encontro no qual incontveis romances comearam ou terminaram  sombra das estrelas de Hollywood.

THE CARIOCA
WAY OF LIFE
Estas varandas da Avenida Atlntica, fotografadas para a revista Life em 1945, representavam o retrato ideal do Rio de Janeiro para o pblico americano: um novo e sensacional balnerio tropical distante das atribulaes vividas nos anos da II Guerra. Copacabana era a estrela entre os bairros da cidade, e para l convergiam os turistas que invadiam uma praia jovem e cheia de ritmo. A imagem  tambm um documento de um Rio anterior  exploso imobiliria dos anos 70, quando a via foi duplicada e apartamentos como esses deram lugar a coberturas milionrias.

CRNICA SOCIAL
Ao mesmo tempo em que fotografava para a publicidade e divulgava o comportamento carioca nas revistas Fon-Fon, Sombra, Time e Life, Klagsbrunn tambm registrava para a Ao Social Arquidiocesana o cotidiano de comunidades carentes do Rio de Janeiro, como o das lavadeiras em Ricardo Albuquerque em imagem de 1949. Do mesmo ano  a foto da tarde elegante no Jockey Club, com a socialite das latitudes tropicais metida em um improvvel casaco de pele. 


2. CINEMA  SOBRE A LUTA COM MONSTROS
Mads Mikkelsen  falsamente acusado de molestar uma menina no devastador A Caa, de Thomas Vinterberg
ISABELA BOSCOV

     Em uma interpretao soberba, que externa traos de carter de maneira suave mas inequvoca, Mads Mikkelsen , em A Caa (Jagten, Dinamarca, 2012), desde sexta-feira em cartaz, Lucas, um homem de meia-idade que trabalha em um jardim de infncia. Pelas conversas cidas de Lucas com sua ex-mulher ao telefone, depreende-se que ela o considera um fracassado, e vem usando isso contra Lucas no processo de guarda de seu filho adolescente. Mas, entre as crianas da escola, Lucas irradia amor, dedicao, pacincia  e, no trato com a pequena mas imensamente ansiosa Klara (Annika Wedderkopp), filha de um amigo, singular sensibilidade. Klara adora Lucas. E por isso se volta contra ele: numa brincadeira, ela externa sua afeio com ardor demais; Lucas a contm; e Klara, magoada, associa esse episdio a um outro que se passou em sua casa dias antes. E uma manh que comeou como qualquer outra terminar num furaco: Klara, com aquele jeito das crianas de entender e no entender o que esto fazendo, acusa Lucas de t-la molestado. A diretora da escola decide dar a ele o benefcio da dvida, mas no se aguenta na resoluo mais do que algumas horas. O psiclogo chamado a entrevistar Klara rejeita a tentativa da menina de desfazer o mal-entendido; ela se confunde e quase j no sabe mais o que  verdade. A histria corre pela pequena comunidade, outras crianas vm repetir a acusao, e Lucas se v mergulhado na desgraa mais vil que  possvel imaginar. 
     Neste filme espetacular e devastador, o dinamarqus Thomas Vinterberg descarta sem hesitao alguma um recurso que cineastas menores explorariam ao mximo: a dvida. O que Vinterberg consegue, ao elimin-la,  compelir o espectador a investir seus sentimentos sem reservas no drama de Lucas, uma vez que desde o incio sua inocncia est clara para ele. Toda uma vida de convivncia estreita com seu crculo de amigos, com os quais se rene para caar, deveria tambm comprar para Lucas um lampejo que fosse de ceticismo: como esse homem poderia ter feito algo assim? Mas o lampejo no vem, sufocado pelo pnico natural e compreensvel com que pais protegem seus filhos. Um nico amigo, Bruun (o timo Lars Ranthe), fica do lado de Lucas e briga para provar sua inocncia. No porque tenha sido sempre seu amigo mais ntimo  esse seria Theo (Thomas Bo Larsen), o pai de Klara , mas porque  o melhor homem entre todos os colhidos pelo episdio. Numa situao como essa, demonstra Vinterberg, a nica inocncia presumida  a das crianas:  inconcebvel para os adultos que elas mibtam, e ainda mais para ferir, porque eles querem crer que elas representam o melhor de si. Ao acusado restam o nojo e a ignomnia porque adultos sabem do que adultos so capazes, e a fria deles vem na mesma proporo da indiferena, violncia e dio que cada um sabe guardar dentro de si. 
     Como no filme que o lanou, o tambm estupendo Festa de Famlia, de 1998, Vinterberg  aqui de um realismo niilista. "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para no tornar-se tambm ele um monstro", escreveu Nietzsche. A cautela, porm, desapareceu no instante em que Klara fez sua acusao. E nem a coragem com que Lucas desafia o pai da menina a olhar nos seus olhos e dizer o que v neles  uma sequncia fustigante passada numa missa de Natal  bastar para fazer com que os atores desse drama revertam ao seu estado original. Uma vez que os homens viram monstros, equaciona a cena final, no h como faz-los voltar a ser homens. 


3. CINEMA  PR-HISTRIA DA ADOLESCNCIA
Em Os Croods, so os jovens que impulsionam a civilizao. 

     Os Croods so sobreviventes. Todos os cls da vizinhana foram devorados por animais selvagens  monstros gigantescos: estamos na pr-histria  ou dizimados por doenas fatais, mas os Croods persistem, caando durante o dia e buscando refgio na sua caverna  noite. A frmula para a sobrevivncia  resumida pelo patriarca Grug em uma palavra: medo. Tudo o que est do lado de fora da caverna deve ser temido. A mulher diligente, a sogra anci, o menino pateta e at a beb precocemente feroz seguem, obedientes, a cartilha paterna. Grug s tem problemas com Eep, sua filha adolescente, cujo temperamento inquieto escapa de vez ao controle paterno quando a jovem faz amizade (ou algo mais) com Guy, criativo inventor de gadgets primitivos  entre eles, claro, o fogo. Os Croods  Uma Aventura das Cavernas (The Croods; Estados Unidos; 2013), nova animao dos estdios DreamWorks,  um elogio desmesurado  fora vital da adolescncia: caber ao casal de garotos impulsionar a humanidade a novos patamares culturais e tecnolgicos. 
     A tenso entre um jovem inovador e os adultos aferrados  letra morta da tradio j aparecera com outro cenrio  uma aldeia viking  em um filme anterior do mesmo estdio, Como Treinar o Seu Drago. O tema l estava desenvolvido de forma mais eficiente, e com personagens mais cativantes. Projeto que andava quicando para l e para c na DreamWorks desde 2005, Os Croods no chega a justificar tanto tempo de elaborao. Tem,  verdade, sequncias de ao velozes e divertidas, que vm sendo comparadas aos ensandecidos jogos de presa e predador do Coiote e do Papa-Lguas. S que os personagens clssicos da Warner eram figuras desprovidas de psicologia. Os Croods, ao contrrio, pretende envolver o pblico em um drama familiar  que, por mais que se force a nota emocional repetidas vezes no final do filme, nunca se desenvolve a contento no meio de tanta agitao. O aspecto mais criativo do filme est na fauna ancestral, em tudo diferente de A Era do Gelo, com seus verossmeis mamutes e tigres-dentes-de-sabre. Esta  uma pr-histria exuberante e fantasiosa, povoada de animais improvveis como cachorros com rabo de lagarto e at uma baleia terrestre. 
JERNIMO TEIXEIRA


4. MSICA  NO COMPASSO DO ROCK
O ingls Tim Rice  um patrimnio vivo: levou aos musicais a pulsao do rock, criou cones como Jesus Cristo Superstar e Evita e assinou o maior sucesso do gnero. O Rei Leo
SRGIO MARTINS

     O ingls Tim Rice, de 68 anos,  o maior compositor letrista da era do rock nos musicais. No, ele no inventou o gnero  mrito de Hair, de 1967, de Galt McDermot, James Rago e Gerome Ragni. Mas foi quem melhor transferiu a pulsao e a distoro do rocknroll para os palcos do West End londrino e da Broadway nova-iorquina. A parceria de Rice com o compositor Andrew Lloyd Webber rendeu espetculos memorveis, como Jesus Cristo Superstar, de 1971, e Evita, de 1978. "Fomos pioneiros", disse ele a VEJA. Webber e Rice tiveram um papel to definidor para o musical de hoje quanto a dupla inglesa W.S. Gilbert e Arthur Sullivan para a opereta cmica vitoriana. Mas a dissoluo da parceria, nos anos 80, no abalou a criatividade de Rice. O Rei Leo, adaptao teatral do desenho da Disney,  o mais lucrativo musical da histria: j superou os 850 milhes de dlares. O Rei Leo ganha agora uma verso brasileira, que chega a So Paulo no dia 28. A montagem est orada em 50 milhes de reais, e coube a Gilberto Gil verter as letras para o portugus. "Ele no telefonou uma vez sequer; creio que no teve problemas em adaptar meus versos", diz Rice. 
     O rock foi sempre a paixo primeira de Rice. "Escutei mais Elvis Presley e Chuck Berry do que os grandes da Broadway", admite. Em 1965, ele trabalhava na gravadora EMI quando conheceu Webber, que ento tentava emplacar como hitmaker. Trs anos depois, eles criaram Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat, inspirado na passagem do Gnesis em que Jos  vendido como escravo e depois se torna conselheiro do fara do Egito. Era j um sinal da fixao de Rice por heris bblicos. "As escolas onde estudei davam muita importncia ao ensino da religio. Mas, paradoxalmente, elas me fizeram questionar a motivao de certos personagens da Bblia", diz. Por exemplo, Judas. Em Jesus Cristo Superstar, Judas  to crucial  trama quanto o titular: tem dvidas sobre a divindade de Jesus e se incomoda com o fato de ele aceitar a adulao que o cerca. 
     Superstar confirmou o flerte de Rice e Webber com o rock. Tanto que, na verso original o papel principal coube a Ian Gillan, cantor do Deep Purple. A viso de um Cristo com falhas humanas a princpio no foi bem aceita. "Os crticos detestaram. Depois, nos elegeram o espetculo do ano", ironiza Rice. Alguns grupos religiosos tambm protestaram. "Em Buenos Aires, houve ameaa de bomba no teatro." No obstante, o espetculo seguinte da dupla foi Evita, que trazia uma viso crtica de Eva Pern (1919-1952) e foi um sucesso ribombante, puxado pelo carro-chefe Don't Cry for Me Argentina. 
     Quando a parceria com Webber se desfez, Rice foi testar outras colaboraes. Com Benny Andersson e Bjrn Ulvaeus, do sueco Abba, criou Chess, um musical sobre xadrez passado na Guerra Fria. Escreveu ainda All Time High, tema de 007 contra Octopussy, de 1983. "Gosto da letra, mas acho a melodia de John Barry tolinha", alfineta. s vezes, ele ainda se rene com Webber. "Mas no h como eu fazer um musical com ele de novo. Seria como pedir a volta do Led Zeppelin." Em O Rei Leo, Rice fez dobradinha com outro arquiteto do pop, Elton John. "Costumo escrever as letras junto com a msica; Elton quer as letras prontas, para ento criar a melodia. Tivemos alguns desencontros", diz. Para Rice, o letrista de musical deve obedecer a dois mandamentos bsicos: "Primeiro, dominar a gramtica. Depois, escrever sobre um assunto com o qual as pessoas se identifiquem". Seu novo projeto, assinado com o novato Stuart Brayson,  uma adaptao de A Um Passo da Eternidade  realizada, observa Rice, a partir do livro de James Jones, e no de sua adaptao cinematogrfica de 1953. No filme, a camaradagem entre os soldados vividos por Montgomery Clift e Frank Sinatra  somente isso: camaradagem. O macho Sinatra no aceitaria mostrar as facetas ambivalentes do personagem  que devem figurar no musical. 
     Tim Rice e Andrew Lloyd Webber costumam ser achincalhados pelos adeptos dos musicais tradicionais. Os fs de Rodgers e Hammerstein, dupla americana clssica dos anos 40 e 50, jamais aceitaram as mudanas promovidas pelos dois cabeludos ingleses. O sucesso deles, porm, arejou o cenrio teatral americano e ingls e abriu espao para produes inovadoras  o caso exemplar  Rent, de 1996, que rendeu um Prmio Pulitzer de Drama ao seu autor, Jonathan Larson. Rice no manifesta nenhum desejo de largar a cena roqueira. Proprietrio do Heartaches, clube de crquete cujo nome vem de uma cano de Elvis Presley, ele at j pensou em quem ser seu prximo parceiro. "Barry Gibb, dos Bee Gees. Ele deve estar cheio de boas ideias." 


5. VEJA RECOMENDA
DISCOS
PEOPLE, HELL & ANGELS, JIMI HENDRIX (SONY MUSIC)
 Morto em 1970, o cantor e guitarrista Jimi Hendrix no para de lanar discos. Ano aps ano so lanadas compilaes com gravaes ao vivo, faixas raras ou verses alternativas de seus sucessos. O material reunido em People, Hell and Angels, porm,  de qualidade superior. So doze msicas, gravadas entre 1968 e 1969. A formao varia de uma faixa para outra, mas em geral Hendrix se faz acompanhar pelo baterista Buddy Miles e pelo baixista Billy Cox. Apesar de todo o repertrio do CD j ter aparecido em outras coletneas, o disco  mais fiel s concepes de Hendrix. O produtor Eddie Kramer, ex-colaborador do guitarrista, no mexeu nas fitas originais. H uma verso primorosa de Earth Blues, com a bateria suingada de Miles. Bleeding Hear, do bluesman Elmore James, ganha uma crueza indita. Let You Move You, blues/funk cantado pelo saxofonista Lonnie Youngblood, d uma mostra de como o trabalho do msico poderia ter evoludo caso ele no tivesse morrido prematuramente: Jimi Hendrix aparece como um guitarrista completo, que contm os instintos exibicionistas para servir apenas  msica. 

THE 20/20 EXPERIENCE, JUSTIN TlMBERlME (SONY MUSIC) 
 Num cenrio marcado por carreiras cada vez mais efmeras (Lady Gaga e Justin Bieber parecem j estar murchando), surpreende que o retorno de Justin Timberlake aos discos ainda desperte interesse. Seu ltimo lanamento, FutureSex/LoveSounds,  de quase sete anos atrs, e desde ento Timberlake tem trabalhado sobretudo no cinema. Esse perodo de afastamento, no entanto, no o deixou alheio ao que estava sendo produzido de melhor na msica negra americana contempornea. The 20/20 Experience traz os elementos comuns ao trabalho de Timberlake: vocais em falsete (indicadores de que o cantor escutou muito Michael Jackson) e samples de artistas clssicos da soul music, como Stevie Wonder e Isaac Hayes e o grupo vocal The Delfonics. Na contramo do padro radiofnico, o novo disco traz canes longas, caracterstica dos expoentes da nova gerao do R&B, como Frank Ocean. Suit & Tie, a primeira (e tima) faixa de trabalho do lbum, tem mais de cinco minutos. As canes so timas, mas as letras derrapam em tentativas primrias de erotismo. "Me diga por que fizemos sexo como profissionais em nossa primeira vez", diz o sempre modesto cantor em Strawberry Bubblegum. 

LIVROS 
O JANTAR ERRADO, DE ISMAIL KADAR (TRADUO DE BERNARDO JOFFILY; COMPANHIA DAS LETRAS; 168 PGINAS; 36 REAIS) 
 Como o hngaro Sndor Mrai, o albans Ismail Kadar teve a experincia direta de dois totalitarismos: o nazismo (nascido em 1938, ele era criana quando os alemes invadiram seu pas) e o comunismo. O Jantar Errado revisita essa triste sequncia de catstrofes histricas com um enredo que parece fantasioso, mas se baseia em eventos reais que tiveram lugar em Girokastra, cidade natal do autor. Em 1943, os alemes esto chegando  cidade. Por acaso, o coronel Fritz von Schwabe, comandante das foras invasoras,  um grande amigo de Gurameto Grande, eminente mdico do lugar. Os dois estudaram juntos em Munique. O bom doutor recebe o antigo colega para um jantar em sua casa  e consegue milagrosamente que ele suspenda a programada execuo de oitenta refns em represlia a aes da resistncia. Nunca fica claro, porm, o que de fato ocorreu naquele jantar, e as vrias verses sobre o evento  pontuadas por sonhos e delrios de seus participantes  ecoaro por anos. A histria da Albnia  propcia a esses recorrentes pesadelos histricos. 

TARTARIN DE TARASCON, DE ALPHONSE DAUDET (TRADUO DE CARLITO AZEVEDO; COSACNAIFY; 160 PGINAS; 33 REAIS) 
 O leitor nefito que porventura se intimide com o peso tantas vezes associado aos clssicos est convidado a comear sua aventura literria por essa pequena prola da literatura francesa. Trata-se de um clssico da leveza: uma obra breve, acessvel, de leitura escorreita, e cheia de graa e cor. Morador da provinciana Tarascon, Tartarin, o ridculo heri criado por Alphonse Daudet (1840-1897), apresenta-se como um grande aventureiro e caador. Tem uma prodigiosa coleo de armas em seu escritrio, e no seu jardim s se encontram plantas exticas (incluindo-se um estranho baob ano). Na verdade, porm, ele nunca participou de uma caada de verdade, pois os arredores de sua cidade so completamente desprovidos de animais. Fantasioso e ingnuo  Dom Quixote, o delirante cavaleiro criado pelo espanhol Miguel de Cervantes, costuma ser lembrado como matriz de Tartarin , o personagem afinal se v obrigado a viajar para a Arglia na tentativa de matar um leo. Com essa pardia, Daudet ganhou a admirao de contemporneos como Flaubert e Zola. Esta nova traduo do livro vem ilustrada com desenhos de Rafael Sica. 

BLU-RAY 
NASCE UMA ESTRELA (A STAR IS BORN, ESTADOS UNIDOS, 1976. WARNER HOME) 
 Esta  a quarta verso de um dos melodramas favoritos de Hollywood. A mesma histria foi filmada duas vezes nos anos 30 e ganhou propores de superproduo nos anos 50: jovem aspirante a atriz de cinema se apaixona por superastro que a ajuda a realizar o sonho, mas, enquanto ela ascende ao estrelato, ele enche a cara e se afoga na decadncia. Nos anos 70, o enredo lacrimoso foi transferido para o mundo do rock'n'roll. E a ento diva absoluta, Barbra Streisand, faz a cantora obscura que se envolve com o megastar do momento (Kris Kristofferson), amante de velocidade, sexo, lcool e drogas. H shows em estdios lotados, um desempenho sincero de Kristofferson, uma bela cano (Evergreen) que levou o Oscar e uma certa comicidade involuntria. Mas, sobretudo, h a onipresena de Barbra, que, no final, executa um nmero arrasador. Exemplar demonstrao da eficiente carpintaria hollywoodiana com um toque de prazer perverso:  agradvel de ver exatamente por causa das suas qualidades duvidosas. 


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
4. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
5. Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA
6. Uma Curva na Estrada  Nicholas Sparks. ARQUEIRO
7. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
8. Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA 
9. Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS
10.   A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR
3. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
4. Lincoln  Doris Kearns Goodwin. RECORD 
5. Danuza & Sua Viso de Mundo sem Juzo  Danuza Leo. AGIR 
6. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA 
7. O Homem que No Queria Ser Papa  Andreas Englisch. UNIVERSO DOS LIVROS
8. A Outra Histria do Mensalo Paulo Moreira Leite. GERAO EDITORIAL 
9. O Livro de Filosofia  Vrios. GLOBO 
10. Catarina, a Grande: Retrato de uma Mulher  Robert K. Massie. ROCCO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
2. Mentes Brilhantes  Alberto DellIsola. UNIVERSO DOS LIVROS
3. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER
4. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
5. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
7. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE 
8. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
9. O Poder do Hbito  Charles Duhigg. OBJETIVA
10. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER


7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  AO DEUS-DAR
     A entrevista do empresrio Jorge Gerdau aos reprteres Fernando Rodrigues e Armando Pereira Filho, postada no portal UOL no ultimo dia 15, foi das mais contundentes  e mais reveladoras  sobre o modo de governar que ultimamente se imps no Brasil. Gerdau faz trabalho voluntrio no governo Dilma. Preside a Cmara de Polticas de Gesto, Desempenho e Competitividade, criada, por sugesto dele prprio, para ajudar na racionalizao e na eficcia da administrao, e fala, portanto, do ponto de vista de quem conhece a matria pelo lado de dentro. Trs foram os trechos mais significativos da entrevista: 
     Pergunta  O sr. diria que a poltica atrapalha a gesto? 
     Resposta, depois de longa pausa  Dentro da estrutura brasileira, o conceito de poltica atrapalha bastante a gesto... 
     O que chama ateno nesse primeiro ponto  a sugesto da existncia de um "conceito de poltica" peculiar ao Brasil. Gerdau no explica que conceito  esse. Fica nas reticncias, o que nos deixa diante de uma no declarao. Eis no entanto uma no declarao cheia de sentido. O conceito de poltica que passou a imperar no Brasil, em primeiro lugar, nega a poltica. Quer dizer: nega o embate de ideias e de programas. Em segundo lugar, nega as polticas. No o regem os modelos desta ou daquela poltica educacional, desta ou daquela poltica de transporte. Sobra, como sabemos, que o "conceito de poltica" em vigor no pas gira (em falso) em torno de eixos como a liberao de emendas parlamentares, a distribuio de cargos na administrao, a constituio de um ministrio amplo o bastante para abrigar uma enxurrada de partidos e a acumulao de minutos de TV nas campanhas eleitorais. O "conceito de poltica" assim estruturado (ou desestruturado)  a me de todos os problemas que se interpem  racionalidade e  eficcia da administrao
     Pergunta  O nmero de partidos vai aumentar. Vamos acabar tendo cada vez mais ministrios? 
     Resposta  Tudo tem o seu limite. Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, sai um saneamento. Ns provavelmente estamos no limite desse perodo. 
     Gerdau, aqui, mostra-se paradoxalmente desesperado e esperanoso. O desespero leva-o a chamar de "burrice", "loucura" e "irresponsabilidade" o ato reflexo de ir criando ministrios  medida que os partidos aderem ao governo, ou mesmo so criados para tal. A esperana o faz vislumbrar que estamos chegando ao limite dessa prtica. Bondade dele, ou talvez concesso de quem, afinal, faz parte do governo. Vem a o Ministrio da Micro e Pequena Empresa, para o mais novo adesista, o PSD do ex-prefeito Kassab. Dias atrs houve mudana em quatro ministrios  os da Agricultura, da Aviao Civil, do Trabalho e dos Assuntos Estratgicos. Novos titulares foram anunciados para os trs primeiros, ficando para ser ainda nomeado o titular do quarto. Sobre os ministrios da Aviao Civil e dos Assuntos Estratgicos, de origem recente, um estrangeiro que desconhecesse as manhas locais perguntaria, antes de qualquer especulao quanto aos novos titulares, por que diabos foram criados. Se existe um Ministrio dos Transportes, por que um da Aviao Civil? E, se estratgia  algo que deve alimentar cada ministrio, por que reuni-la num s? No valem a pena tantas perguntas, porm. Houve poca em que "reforma ministerial" era coisa sria. Implicava inflexes nos rumos dos governos. No mais. Esta ltima, como as anteriores, desgasta a ideia de "reforma" e contribu para desmoralizar o prprio conceito de "ministrio". 
     Pergunta  A presidente teria poder para reduzir o nmero de ministrios? 
     Resposta  Com o nmero de partidos crescendo cada vez mais,  quase impossvel. O que a presidenta faz? Trabalha com meia dzia de ministrios realmente chave. O resto  um processo que anda com delegaes de menor peso. 
     Gerdau, nos trs trechos destacados, foi do mais geral ao mais particular. Neste ponto, chegou ao modo de operar da presidente, e a concluso  dramtica. Uma ampla poro do governo  33, dos 39 ministrios  funcionaria de modo mais ou menos autnomo, sem sofrer a ao direta  e talvez sem atrair o interesse  da presidente. Fecha-se o crculo. Da me de todos os problemas, que  o peculiar "conceito de poltica" brasileiro, chega-se  necessria consequncia de um substancial espao da administrao ser abandonado ao deus-dar. 


